Existe uma pergunta que começa a aparecer com mais frequência sempre que imagens de tempestades violentas surgem no Sul do Brasil e na Argentina: por que essa região parece estar se transformando em um verdadeiro laboratório de fenômenos meteorológicos extremos?
A resposta não está em um único fenômeno. Não é simplesmente o frio. Não é apenas o calor. Não é somente a umidade. E muito menos um ciclone isoladamente.
O que torna o Sul do Brasil, o Uruguai, o Paraguai e parte da Argentina tão favoráveis à ocorrência de tempestades severas é justamente o encontro de vários ingredientes atmosféricos diferentes em uma mesma região.
E quando esses ingredientes se alinham, a atmosfera pode produzir uma sequência de fenômenos extremamente violentos: granizo de grande porte, rajadas destrutivas, linhas de instabilidade, supercélulas e, em determinadas situações, tornados. Mas existe uma informação que considero particularmente importante para quem vive no Alto Paranaíba:
Patrocínio também pode registrar um tornado.
Não significa que isso seja frequente. Não significa que exista uma situação de risco permanente. Significa apenas que, do ponto de vista meteorológico, não existe nenhuma barreira que torne a cidade imune ao fenômeno.
E o histórico regional comprova isso.
PRIMEIRO, É PRECISO ENTENDER O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO SUL
O episódio meteorológico recente envolvendo Argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul e outras áreas do Sul do Brasil foi marcado pela atuação de um sistema de baixa pressão extremamente intenso.
O Instituto Nacional de Meteorologia chegou a monitorar um ciclone com pressão central próxima de 940 hPa.
Mas o que exatamente significa esse número?A pressão atmosférica é o peso exercido pela coluna de ar sobre determinada superfície.Ao nível do mar, a pressão média é aproximadamente 1.013 hPa.Quando encontramos um sistema com pressão central de 940 hPa, estamos diante de uma área de pressão excepcionalmente baixa.É uma diferença enorme.E essa diferença de pressão é importante porque a atmosfera tende a movimentar o ar das regiões de maior pressão para as regiões de menor pressão.Quanto maior o gradiente de pressão, maior pode ser a velocidade dos ventos associados ao sistema.É importante, porém, não cometer um erro comum nas redes sociais:
940 hPa não significa que toda a região atingida pelo ciclone estava com 940 hPa.
Esse valor corresponde à pressão no centro do sistema.Também é errado dizer que um ciclone de 940 hPa provoca automaticamente tornados.Não provoca.O que um ciclone muito intenso pode fazer é criar ou reforçar um ambiente atmosférico extremamente favorável à formação de tempestades organizadas.E é aí que começa a história dos tornados.
CICLONE E TORNADO SÃO FENÔMENOS COMPLETAMENTE DIFERENTES
Um ciclone extratropical pode possuir centenas ou até milhares de quilômetros de extensão e permanecer atuando durante vários dias. Um tornado é muito menor. Sua escala normalmente varia de dezenas a algumas centenas de metros, embora existam casos excepcionais maiores. O tornado também possui uma duração muito menor. Ele pode surgir dentro de uma tempestade e desaparecer poucos minutos depois. Portanto, não existe uma relação direta do tipo:
CICLONE FORTE = TORNADO.
A relação correta é: CICLONE + FRENTE + CALOR + UMIDADE + INSTABILIDADE + CISALHAMENTO DO VENTO = AMBIENTE FAVORÁVEL A TEMPESTADES SEVERAS.
E algumas dessas tempestades podem produzir tornados.
O GRANDE SEGREDO ESTÁ NO ENCONTRO ENTRE AR QUENTE E AR FRIO
A América do Sul possui uma característica geográfica que favorece muito esse tipo de situação. Ao norte e nordeste existe uma enorme fonte de calor e umidade. A Amazônia e o Centro-Oeste conseguem fornecer grandes quantidades de vapor d’água para a atmosfera.
Ao sul, massas de ar frio avançam a partir da Argentina e das áreas próximas à Antártida. Quando o ar quente e úmido avança para uma região e encontra uma massa de ar muito mais fria, a atmosfera pode se tornar extremamente instável.
O ar quente tende a subir. Se houver um mecanismo que force essa ascensão, a convecção pode crescer rapidamente. É assim que começam muitas das grandes tempestades.
Mas ainda falta um ingrediente.

O VENTO QUE MUDA DE DIREÇÃO COM A ALTITUDE
Um dos fatores mais importantes para entender um tornado é o chamado cisalhamento vertical do vento.
Na prática, significa que o vento não sopra da mesma maneira em todas as alturas. Próximo ao solo ele pode soprar de uma direção. A alguns quilômetros de altitude pode soprar de outra. E ainda pode ser muito mais rápido. Essa diferença pode produzir rotação na atmosfera. Quando uma tempestade suficientemente organizada se desenvolve nesse ambiente, essa rotação pode ser inclinada para a vertical. Surge então uma tempestade rotativa, conhecida como supercélula. E algumas supercélulas conseguem concentrar essa rotação perto da superfície até produzir um tornado. Por isso, o tornado não é simplesmente “um vento muito forte”. É um fenômeno de dinâmica atmosférica extremamente complexa.
POR QUE ARGENTINA, URUGUAI E SUL DO BRASIL?
Aqui está uma das partes mais interessantes dessa história. A Cordilheira dos Andes funciona como uma gigantesca barreira natural. Ela interfere na circulação atmosférica e favorece o deslocamento de massas de ar ao longo das grandes planícies situadas a leste da cordilheira. Ao mesmo tempo, existe um transporte muito importante de ar quente e úmido em baixos níveis da atmosfera. Esse fluxo é conhecido pelos meteorologistas como Jato de Baixos Níveis da América do Sul. Ele pode transportar umidade da região amazônica em direção ao Centro-Sul do continente. Imagine então a seguinte situação: De um lado, ar quente e úmido chegando. De outro, uma frente fria avançando. Acima deles, ventos fortes e diferentes daqueles encontrados próximos ao solo. A atmosfera fica carregada de energia.
Se uma tempestade se organiza corretamente, ela pode se tornar extremamente violenta.
É por isso que a região central da Argentina, Uruguai, Paraguai e Sul do Brasil apresenta tantos episódios de tempestades severas.

E O BRASIL?
O Brasil está longe de ser um país sem tornados. Na realidade, existem registros em diferentes regiões. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná possuem um histórico importante. São Paulo também possui ocorrências documentadas. Minas Gerais também. Mato Grosso do Sul também.
E isso é fundamental para compreender o que pode acontecer no Alto Paranaíba.
UBERLÂNDIA JÁ TEVE TORNADO
É justamente aqui que a discussão deixa de ser apenas teórica para o morador da nossa região.
Uberlândia já teve registro de tornado.
E esse dado é importante porque Uberlândia está a aproximadamente 150 quilômetros de Patrocínio, dependendo do ponto considerado. Ou seja, não estamos falando de um fenômeno ocorrido em uma região climaticamente completamente diferente. Estamos falando de uma área do Triângulo Mineiro que também está sujeita à formação de tempestades severas.
Além de Uberlândia, existem registros de tornados e fenômenos tornádicos em outros municípios mineiros, incluindo Araguari e Monte Carmelo. Monte Carmelo merece uma atenção especial justamente pela proximidade com Patrocínio.
Isso não significa que Patrocínio tenha a mesma frequência de tornados observada em determinadas áreas do Sul do Brasil. Não tem. Mas significa que afirmar que “aqui não existe tornado” seria cientificamente incorreto.
E PATROCÍNIO?
A pergunta que provavelmente mais interessa ao leitor é justamente essa.
Pode acontecer um tornado em Patrocínio?
Sim. Meteorologicamente, pode. O município está localizado no Alto Paranaíba, em uma região onde massas de ar quente e úmido podem interagir com sistemas frontais e áreas de instabilidade. Durante determinados episódios, o ambiente atmosférico pode apresentar: calor + umidade + instabilidade + convergência de ventos + cisalhamento vertical.
Essa combinação é capaz de produzir tempestades severas. E dentro de uma tempestade severa pode existir uma supercélula. E dentro de uma supercélula pode surgir um tornado. Isso não significa que seja possível prever hoje que um tornado ocorrerá em Patrocínio amanhã.
É justamente aí que existe uma diferença importante entre previsão meteorológica e previsão tornádica. Os meteorologistas conseguem identificar regiões onde o ambiente está favorável para tempestades severas. Mas determinar exatamente qual bairro de uma cidade será atingido por um tornado continua sendo extremamente difícil.
O ALTO PARANAÍBA NÃO ESTÁ ISOLADO DA DINÂMICA DO CENTRO-SUL
Existe ainda outro aspecto que merece atenção. Patrocínio está em uma área de transição atmosférica. Sistemas que se organizam no Sul podem avançar para o Sudeste. Frentes frias podem modificar rapidamente as condições atmosféricas em Minas Gerais. Linhas de instabilidade podem atravessar o estado. E áreas de baixa pressão podem reorganizar o transporte de umidade e os ventos.
Portanto, quando ocorre uma grande tempestade no Sul do Brasil, não significa que Patrocínio será atingida. Mas também não significa que o fenômeno esteja completamente desconectado da nossa atmosfera. A atmosfera não respeita fronteiras estaduais.
TORNADO NÃO É SINÔNIMO DE TEMPESTADE DE GRANIZO
Outro erro comum é confundir os fenômenos. Uma tempestade pode produzir granizo enorme sem produzir tornado. Pode produzir ventos de 100 km/h ou mais sem produzir tornado. Pode derrubar árvores e telhados sem produzir tornado. Pode ainda produzir uma microexplosão, que ocorre quando uma forte corrente de ar descendente atinge o solo e se espalha violentamente.
Por isso, depois de uma tempestade destrutiva, não basta olhar para uma fotografia de uma casa destruída e afirmar que houve tornado. É necessário analisar a distribuição dos danos. Meteorologistas podem observar a direção em que árvores foram derrubadas, o padrão de destruição das edificações, imagens de radar, vídeos, fotografias e outros dados.
É assim que se tenta diferenciar um tornado de uma rajada descendente ou de outro fenômeno.

ESTAMOS TENDO MAIS TORNADOS?
Essa é outra pergunta que merece cuidado.
É muito fácil transformar uma sequência de eventos extremos em uma afirmação definitiva sobre o clima. Mas a ciência é mais complexa. O aquecimento da atmosfera aumenta a capacidade do ar de conter vapor d’água e pode alterar a disponibilidade de energia para tempestades. Por outro lado, a formação de tornados depende de vários fatores simultâneos. Não basta aumentar a temperatura.
É necessário observar como as mudanças climáticas estão modificando, ao mesmo tempo, a umidade, a instabilidade, o cisalhamento do vento e os padrões de circulação atmosférica. Existe ainda um problema histórico.
Hoje temos celulares, câmeras, radares meteorológicos, satélites e redes sociais. Um tornado que atingisse uma propriedade rural há 50 anos poderia simplesmente ser registrado como “vendaval”. Hoje, provavelmente existiriam dezenas de vídeos.
Portanto, o aumento dos registros não significa automaticamente aumento da frequência real.
O QUE OS 940 hPa NOS ENSINAM?
O número 940 hPa é importante não porque seja uma espécie de “número mágico” capaz de produzir tornados. Ele é importante porque mostra a intensidade excepcional de um sistema de baixa pressão.
E um ciclone muito intenso pode reorganizar completamente a atmosfera ao seu redor. Pode intensificar os ventos. Pode reforçar o transporte de umidade. Pode aumentar o contraste entre massas de ar. Pode organizar frentes. Pode favorecer linhas de tempestades. E, em determinadas circunstâncias, pode criar o ambiente necessário para supercélulas e tornados. Essa é a conexão correta. Não é: 940 hPa = tornado.
É: 940 hPa = ciclone extremamente intenso, capaz de participar de uma configuração atmosférica favorável a tempo severo.
E QUAL É A LIÇÃO PARA PATROCÍNIO?
Talvez a principal conclusão seja justamente abandonar dois extremos. O primeiro é o alarmismo. Um alerta de tempestade não significa que um tornado atingirá a cidade. O segundo é a falsa sensação de segurança. Dizer que “Patrocínio nunca teve tornado e nunca terá” também não encontra respaldo na meteorologia.
O histórico de Uberlândia, Araguari e Monte Carmelo mostra que o Triângulo Mineiro e o Alto Paranaíba não estão fora do mapa de fenômenos tornádicos.
Patrocínio não é uma cidade localizada no principal corredor de tornados do continente. Mas está suficientemente próxima de uma região com registros para que o fenômeno seja considerado possível, embora relativamente raro.
E talvez essa seja a maneira mais responsável de tratar o assunto.
Sem pânico. Sem negar a ciência. E sem transformar cada temporal em um tornado.Porque a atmosfera é muito mais complexa do que as imagens impressionantes que aparecem nas redes sociais.
E, quando os ingredientes certos se encontram, uma tempestade que começa aparentemente como outra qualquer pode evoluir, em questão de minutos, para um dos fenômenos mais violentos que a natureza é capaz de produzir.










