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QUANDO O SERTANEJO VIRA MARCA E PERDE A RAIZ

A discussão sobre o que é, de fato, música sertaneja virou um campo nebuloso, muitas vezes distorcido por interesses de mercado. O rótulo “sertanejo” deixou de ser apenas uma definição estética e cultural, passou a funcionar como estratégia comercial.

Historicamente, o sertanejo nasce da música caipira, com raiz rural, narrativa simples, viola como protagonista e letras que retratam a vida no interior, o trabalho no campo, a religiosidade e as relações humanas sem filtro urbano. Nomes como Tião Carreiro, Tonico e Tinoco e Pena Branca & Xavantinho não apenas cantavam esse universo, eles eram parte dele.

A mudança começa quando o gênero passa por um processo de industrialização. A partir dos anos 1990, com duplas como Zezé Di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó, o sertanejo incorpora elementos do pop, amplia arranjos e se adapta ao rádio, ainda mantendo identidade, mesmo com a modernização.

O problema se intensifica no chamado “sertanejo universitário” e no modelo atual. Artistas como Gusttavo Lima, Zé Neto & Cristiano e Matheus & Kauan operam dentro de uma lógica onde o gênero passa a ser apenas embalagem. Musicalmente, há forte presença de pop internacional, batidas eletrônicas, estruturas repetitivas e letras focadas quase exclusivamente em festas, consumo e relações superficiais.

O ponto central é claro, chamar tudo isso de “sertanejo” não representa apenas uma evolução natural, mas uma diluição estratégica. O termo carrega valor simbólico e comercial no Brasil, principalmente no interior, por isso é mantido, mesmo quando o conteúdo já não dialoga com suas origens.

Na prática, o que se vê hoje é um produto híbrido, nem pop puro, nem sertanejo raiz, um formato padronizado, pensado para algoritmos, grandes eventos e consumo rápido. A identidade cultural, que antes era o núcleo do gênero, passa a ser secundária.
Isso não significa que a música atual seja ruim por definição, o problema está na rotulagem. Quando tudo vira sertanejo, o termo perde significado e, mais grave, apaga-se a distinção entre tradição e produto.

Se a música não fala do campo, não carrega a estética da viola, não preserva a narrativa rural e não dialoga com a raiz cultural que originou o gênero, insistir no rótulo “sertanejo” deixa de ser uma questão artística e passa a ser uma escolha de marketing.

No fim, a pergunta correta não é se isso é bom ou ruim, mas se ainda é sertanejo ou apenas um produto pop com nome emprestado.

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