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QUANDO O SHOW VIRA NEGÓCIO E O INTERESSE PÚBLICO FICA EM SEGUNDO PLANO

A contratação de shows artísticos por prefeituras, que deveria cumprir função cultural e social, vem se consolidando em muitos casos como um terreno fértil para distorções financeiras e interesses paralelos. O problema não está no investimento em cultura, mas na forma como ele é executado.

Na prática, observa-se um padrão recorrente, artistas com alto apelo popular são contratados por valores elevados, muitas vezes acima do praticado em eventos privados semelhantes. A justificativa oficial costuma girar em torno de “atrair público” e “movimentar a economia local”, argumentos válidos em tese, mas frágeis quando não acompanhados de transparência e critérios objetivos.

O ponto crítico está na intermediação. Empresas especializadas na venda de shows atuam como pontes entre artistas e o poder público. Até aí, não há irregularidade. O problema surge quando esses contratos apresentam indícios de sobrepreço, cláusulas pouco claras ou ausência de competição efetiva. Em alguns casos, a inexigibilidade de licitação, instrumento legal previsto para situações específicas, passa a ser utilizada de forma recorrente, reduzindo a concorrência e abrindo espaço para distorções.

Esse ambiente cria uma zona cinzenta onde o valor artístico se mistura com interesses políticos e comerciais. Há relatos frequentes, investigados em diferentes regiões do país, de estruturas onde o custo do show é inflado artificialmente, permitindo margens elevadas para intermediários e, em situações mais graves, possíveis retornos indiretos a agentes públicos.

O impacto vai além do financeiro. Recursos que poderiam ser distribuídos em múltiplas ações culturais, infraestrutura ou serviços essenciais acabam concentrados em eventos pontuais. A lógica deixa de ser política pública e passa a ser vitrine política.

Outro problema evidente é a ausência de parâmetros claros para precificação. Quanto vale um show? Sem critérios transparentes, a resposta se torna subjetiva e facilmente manipulável. A popularidade do artista vira justificativa para qualquer cifra, enquanto a análise técnica, quando existe, raramente é tornada pública.

É importante separar o legítimo do irregular. Nem toda contratação de alto valor é, por si só, superfaturamento. Grandes eventos têm custos elevados, envolvem logística complexa e podem gerar retorno econômico. No entanto, a repetição de contratos com valores questionáveis, a falta de concorrência e a opacidade nos processos indicam um padrão que merece atenção.

O cenário exige mais do que indignação pontual. Exige fiscalização técnica, atuação efetiva dos órgãos de controle e, principalmente, transparência ativa por parte das prefeituras. Publicar contratos, detalhar custos, justificar escolhas e permitir comparação com o mercado são medidas básicas que ainda não são regra.

Quando o entretenimento financiado com dinheiro público perde o compromisso com o interesse coletivo, ele deixa de ser política cultural e passa a ser instrumento de conveniência. E, nesse ponto, o palco já não é apenas artístico, é também político e financeiro.

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