A Fórmula 1 chegou a Madri cercada de expectativa. Circuito novo, estrutura moderna, arquibancadas cheias e uma pista vendida como uma das grandes novidades da categoria. Mas depois de 57 voltas ficou uma sensação difícil de ignorar: o Madring pode até ser interessante para pilotar e desafiador em uma volta rápida, mas, para corrida, sua primeira versão deixou muito a desejar.
O novo circuito espanhol tem 5,414 quilômetros, 22 curvas e mistura trechos de rua com setores construídos especificamente para a Fórmula 1. Um de seus grandes cartões-postais é a curva 12, chamada de “La Monumental”, uma longa curva inclinada que chega a 24% de inclinação. É tecnicamente impressionante e visualmente diferente, mas uma boa pista de Fórmula 1 precisa oferecer mais do que curvas bonitas e desafios para classificação. Precisa permitir corrida. E foi justamente aí que Madri falhou.
Durante praticamente todo o fim de semana já existia uma preocupação entre os pilotos: onde ultrapassar?
Max Verstappen havia alertado antes mesmo da corrida que não conseguia identificar uma oportunidade clara de ultrapassagem. George Russell também apontou um problema fundamental no desenho: a maior reta termina em uma sequência que não proporciona uma zona de frenagem suficientemente clara para atacar o carro da frente. Valtteri Bottas seguiu raciocínio semelhante, dizendo que era relativamente fácil para quem estava na frente defender posição.
A corrida confirmou praticamente todos esses temores.
Pouquíssimas ultrapassagens reais aconteceram fora da primeira volta, e em vários momentos tivemos aquele velho problema das pistas modernas mal desenhadas para corrida: carros mais rápidos presos atrás de carros mais lentos simplesmente porque não existia espaço adequado para realizar uma manobra sem assumir um risco enorme.
O próprio Verstappen admitiu isso depois da prova. Norris vinha mais rápido no final, mas Max reconheceu que conseguiu mantê-lo atrás porque, nas palavras do tetracampeão, “aqui você não consegue ultrapassar”. É uma declaração pesada para uma pista que acaba de estrear na Fórmula 1.
Gabriel Bortoleto também não escondeu sua insatisfação. O brasileiro terminou apenas na 13ª posição com a Audi e classificou a corrida como “chata”. Um detalhe interessante citado por Bortoleto ajuda a explicar o tamanho do problema: mesmo enfrentando dificuldades com seus pneus, ele conseguiu manter atrás um adversário mais rápido. Em uma pista que favorece disputas, uma diferença significativa de ritmo deveria criar oportunidades. Em Madri, muitas vezes não criou.
Lando Norris foi ainda mais direto.
Para o atual campeão mundial, algumas alterações parecem óbvias. Norris defendeu a retirada das curvas 18 e 19 e a transformação daquela região em uma reta maior terminando em um hairpin, uma curva lenta com forte zona de frenagem. Na avaliação dele, isso poderia criar uma oportunidade verdadeira de ultrapassagem. O piloto também citou possíveis alterações nas curvas 5, 6 e 7.
E aqui está talvez a melhor definição para o primeiro Madring: uma pista interessante para classificação, mas fraca para corrida.
Existe diferença.
Uma pista pode ser tecnicamente difícil, exigir precisão, coragem e proporcionar uma volta rápida espetacular para o piloto. Mas isso não significa necessariamente que ela produzirá boas corridas. Para isso é preciso existir uma combinação de retas, zonas fortes de frenagem, possibilidade de linhas diferentes e curvas que permitam ao carro perseguidor permanecer próximo.
Madri mostrou deficiência justamente nessa equação.
ANTONELLI VENCE, MAS NORRIS PROVAVELMENTE TINHA A CORRIDA NAS MÃOS
Dentro da pista, quem saiu vencedor foi Kimi Antonelli.
O italiano da Mercedes conquistou sua oitava vitória na temporada, seguido por Max Verstappen e Lando Norris. Charles Leclerc terminou em quarto, George Russell foi o quinto e Liam Lawson completou a prova em sexto. Franco Colapinto foi sétimo, Oscar Piastri oitavo, Arvid Lindblad nono e Nico Hülkenberg fechou a zona de pontuação em décimo. Gabriel Bortoleto terminou em 13º.
Mas o resultado não conta completamente a história da corrida.
Norris largou na pole e controlava a prova quando a parada de Lance Stroll provocou um Virtual Safety Car. O momento da neutralização, somado a uma parada lenta da McLaren, mudou completamente a situação. Antonelli foi beneficiado estrategicamente e assumiu uma posição que acabou levando à vitória.
O próprio Antonelli reconheceu depois da corrida que Norris provavelmente merecia vencer. Para o italiano, sua performance naturalmente talvez lhe desse um segundo ou até terceiro lugar, mas as circunstâncias da prova acabaram colocando a vitória em suas mãos.
Norris ainda conseguiu chegar novamente em Verstappen no final, mas apareceu novamente o grande defeito do Madring: chegar é uma coisa, ultrapassar é outra.
Resultado final entre os dez primeiros: Antonelli, Verstappen, Norris, Leclerc, Russell, Lawson, Colapinto, Piastri, Lindblad e Hülkenberg. Hamilton abandonou ainda no início com problemas de freios, enquanto Sainz, Pérez e Stroll também não completaram a prova.
ANTONELLI DISPARA NO CAMPEONATO
A vitória em Madri deixou Kimi Antonelli cada vez mais próximo de algo gigantesco em sua carreira.
Depois de 14 etapas, Antonelli lidera o Mundial de Pilotos com 292 pontos. George Russell aparece em segundo com 211, uma diferença de 81 pontos.
Lewis Hamilton continua em terceiro com 191 pontos, mas seu abandono em Madri foi extremamente prejudicial. Lando Norris chegou aos 186 pontos, Charles Leclerc tem 167, Max Verstappen 145 e Oscar Piastri 119.
No Mundial de Construtores, o domínio da Mercedes é ainda mais evidente.
A equipe alemã soma 503 pontos, contra 358 da Ferrari. A McLaren aparece em terceiro com 306, seguida pela Red Bull com 230. Depois aparecem Racing Bulls com 77, Alpine com 68, Haas com 21, Audi com 17, Williams com 11, Aston Martin com 3 e Cadillac ainda sem pontuar.
O MADRING PRECISA MUDAR
Seria precipitado condenar definitivamente uma pista depois de apenas uma corrida. O Madring possui qualidades. É tecnicamente desafiador, tem setores interessantes e a “La Monumental” proporciona uma identidade própria ao circuito.
O problema é que Fórmula 1 não pode ser apenas um exercício de classificação durante 57 voltas.
Quando um carro claramente mais rápido consegue chegar ao adversário, mas não consegue sequer construir uma tentativa consistente de ultrapassagem, existe um problema de desenho da pista. Quando diversos pilotos chegam à mesma conclusão independentemente, o alerta precisa ser levado a sério.
E aparentemente será.
Os responsáveis pelo Madring já trabalham com a perspectiva de alterações para 2027. As discussões devem envolver circuito, FIA, equipes e pilotos, com mudanças sendo estudadas em três áreas do traçado justamente para aumentar as oportunidades de ultrapassagem.
Esse talvez seja o ponto positivo dessa estreia: o problema ficou evidente logo na primeira corrida.
Madri tem estrutura, público, investimento e potencial para permanecer por muitos anos no calendário. O contrato é de longo prazo. Mas dinheiro, arquibancadas modernas e uma curva inclinada espetacular não transformam automaticamente um circuito em uma grande pista.
Uma grande pista precisa permitir que pilotos disputem posição.
O primeiro GP no Madring teve estratégia, teve uma reviravolta provocada pelo Virtual Safety Car e teve consequências importantes para o campeonato. O que quase não teve foi justamente aquilo que o torcedor mais espera quando as luzes se apagam no domingo: ultrapassagens e disputas reais dentro da pista.
O diagnóstico depois da primeira corrida parece bastante simples.
O Madring tem potencial. Mas o traçado atual precisa mudar.










